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1 ano sem Cassiano: memórias de Hyldon, Marisa Monte, Ana Canãs e outros artistas sobre o compositor | G1 Globo

 
Cassiano na contracapa do primeiro álbum solo, 'Imagem e som', de 1971 — Foto: Reprodução

Cassiano na contracapa do primeiro álbum solo, ‘Imagem e som’, de 1971 — Foto: Reprodução

O Brasil se despediu de um dos grandes nomes da música brasileira em 7 de maio de 2021. Cassiano partia aos 77 anos, sendo 30 destes sem lançar novas músicas. Uns dirão que ele não precisava de lançamentos, afinal ‘Primavera’ e ‘Eu amo Você’ — conhecidas na voz de Tim Maia, mas de sua autoria — estão em qualquer playlist de amor ou seleção de karaokê que se preze. Porém a história de Cassiano ainda há de ser resgatada.

‘Tipo Luiz Gonzaga’ – Hyldon

“Cassiano para mim é um dos maiores compositores de melodia” , disse o amigo, produtor, guitarrista, compositor e cantor de soul, Hyldon.

Junto com Tim Maia, os três amigos são conhecidos por trazerem o soul e o funk dos Estados Unidos para o Brasil na década de 70, um movimento de reafirmação da cultura negra no país.

O que escrito parece um dos grandes feitos da música brasileira, Hyldon trata com uma certa naturalidade.

“O que a gente fez foi criar um som com o sotaque brasileiro e as letras em português, que era algo diferente. A gente foi e supriu essa ausência”, explica.

Nascido em 1943 no bairro José Pinheiro, em Campina Grande, Cassiano se afeiçoou pelo violão logo cedo, influenciado pelo pai que tinha uma amizade com Jackson do Pandeiro.

No fim da década de 60, chega no Rio de Janeiro com a família e é no estado que conhece Hyldon e tem suas primeiras experiências musicais.

Cassiano se mudou para o Rio de Janeiro em 1960 — Foto: Reprodução

Cassiano se mudou para o Rio de Janeiro em 1960 — Foto: Reprodução

Em 1964, toca como violonista do Bossa Trio, quando gravou dois LPs e uma série de compactos. Logo depois, esse grupo dá origem ao ‘Os Diagonais’, uma parceria de Cassiano com seu irmão Camarão e o amigo Amaro.

Apesar de nunca ter feito parte dos Diagonais, Hyldon acompanhou a banda em uma excursão pelo interior de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia — tudo isso dentro de um fusca. Por três meses, Cassiano e ele se revezavam no baixo e violão.

“O jeito do violão do Cassiano, o jeito dele tocar, era sempre aquela coisa grande”, relembra.

A convivência com Cassiano fez ele se apaixonar pelo soul e logo depois, trocando influências de Marvin Gaye a Stevie Wonder com Tim Maia, a chamada black music no Brasil começava a nascer.

Os três se conheceram nos corredores da gravadora Polydor, na capital fluminense, e assim começaram as parcerias musicais.

Tim Maia, Cassiano e Hyldon na capa de os 'Velhos Camaradas', coletânea de 1999 com sucessos do trio alicerce do soul brasileiro — Foto: Hyldon/Arquivo Pessoal

Tim Maia, Cassiano e Hyldon na capa de os ‘Velhos Camaradas’, coletânea de 1999 com sucessos do trio alicerce do soul brasileiro — Foto: Hyldon/Arquivo Pessoal

‘Primavera’, ‘Eu amo Você’, ‘Padre Cícero’ e ‘Você fingiu’, composições de Cassiano, foram gravadas por Tim para seu disco de estreia ‘Tim Maia‘, de 1970, que Hyldon também participou.

“Ele sabia que tinha muito talento. Ele é tipo Luiz Gonzaga sabe? ‘Primavera’ é uma música que nunca vai parar de tocar no mundo”, disse o amigo.

O primeiro disco de Cassiano começou a ser pensado nas conversas com Hyldon durante a execução dos Diagonais, mas foi somente após o sucesso comercial de ‘Tim Maia‘ (1970) que o trabalho de Cassiano se tornou ainda mais visível.

Assim, assinou com a RCA em 1971 para se lançar solo com o LP de estreia ‘Imagem e Som’.

Capa do álbum 'Imagem e som', de Cassiano — Foto: Reprodução

Capa do álbum ‘Imagem e som’, de Cassiano — Foto: Reprodução

Em 1973, veio o ‘Apresentamos Nosso Cassiano’, com uma pegada mais psicodélica, mas só em 1976 Cassiano conseguiu o seu sucesso comercial com, o agora clássico álbum, ‘Cuban Soul: 18 Kilates’.

Os singles ‘A Lua e Eu’ e ‘Coleção’ estouraram e foram ambas inclusas na trilha-sonora das novelas ‘O Grito’ e ‘Locomotivas’, respectivamente.

Apesar do grande sucesso, Hyldon explica que Cassiano tinha uma relação complicada com as gravadoras.

Segundo o cantor, Tim Maia gravava coisas mais populares para época e estava aberto a fazer interpretações de outros compositores, além de versões diferentes de suas próprias composições. Ele e Cassiano não abriam exceções.

“Acabou que ficamos com fama de irresponsáveis. Mas, se você for ver a música como arte… temos músicas que foram gravadas há 50 anos, são regravadas, cantadas em bar, uma garotada que vai nos shows, levam o vinil, que agora tá na moda do vinil… Talvez a gente não apareça para o grande público, mas a gente também nunca fez questão”, explica.

Além disso, a relação de músicos e gravadoras sempre foi complicada, principalmente no Brasil, conforme o cantor. “A gente não conseguia negociar com gravadora multinacional, toda equipada, com advogados caros e agente pequenininho sabe?”.

Essa dificuldade, atrelado a um problema de saúde que fez Cassiano perder parte dos pulmões em 1978. O cancelamento do seu quarto álbum pela gravadora CBS no mesmo ano, fizeram com que o cantor fosse ficando mais recluso e fora da mídia.

Rompendo um hiato de 13 anos, em 1991 saiu o álbum ‘Cedo ou tarde’ pela Sony Music. Porém sem controle das direções musicais desse disco, o cantor parou de vez de lançar música depois desse LP.

Ficou sem gravar nada oficialmente desde então. No entanto, a partir de 2000 — quando Ed Motta organizou a compilação ‘Coleção’ — uma nova geração passava a conhecer Cassiano e ele foi se tornando um ‘queridinho’.

Gravações inéditas

Mesmo só tendo notícias do amigo através de uma sobrinha de Cassiano, Hyldon disse ao g1 que apesar de isolado, o cantor estava cheio de músicas novas e foi produtivo musicalmente até a sua morte.

Ele vivia dos direitos autorais de suas músicas e apesar de ter problemas com as gravadoras, não parecia ter problemas financeiros. Foram as desilusões da vida, conforme o amigo, que o fizeram encerrar sua carreira como músico — pelo menos até onde chegou ao público.

Se um dia os fãs vão ouvir essas pérolas não é possível saber, mas o legado de Cassiano ainda mais potencializado por essa nova geração de fãs, será sempre eterno.

“Daqui há 20 anos, a gente ainda vai estar falando sobre Cassiano”, afirma Hyldon.

‘Cantor que é importante para todos nós’ – Marisa Monte

Em turnê que passou por João Pessoa no último dia 28, Marisa Monte cantou ‘A Lua e Eu’: “Sempre que a gente chega aqui a gente lembra de um cantor que é importante para todos nós e que nasceu em Campina Grande”, disse em show.

No último álbum do cantor, ela fez uma participação especial na música título, ‘Cedo ou tarde’, uma parceria de Cassiano com a mineira Suzana Toste.

Marisa Monte canta 'A Lua e Eu' de Cassiano durante show na Paraíba

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Marisa Monte canta ‘A Lua e Eu’ de Cassiano durante show na Paraíba

‘Pedra fundamental filosófica da nossa Soul Music’ – Ana Canãs

Ana Canãs também homenageou o campinense no seu último álbum Todxs. ‘Eu amo você’, composição de Cassiano para o primeiro álbum de Tim Maia, já fazia parte de seu repertório em shows, ganhou um clipe e virou canção oficial de seu repertório.o

Ela explica que a regravação foi um desafio, porque é uma música que mexe muito com seu íntimo. Dando uma roupagem feminina, ela quis transmitir muita sensibilidade:

“O único jeito de você emocionar alguém é você se emocionando também. E como é uma canção que sempre me arrebatou muito e vai me arrebatar até o fim dos meus dias achei que era a música certa pra estar no Todxs”, disse a cantora ao g1.

Quando ela começou a cantar pelos bares de São Paulo, hits do jazz e soul eram o que abrilhantavam a noite da cidade na sua voz. Traçando um paralelo com Belchior, essa certa privacidade e misticidade ao redor do Cassiano é o que chamou atenção de Ana para o incluir em seu repertório:

“O Cassiano também tem uma coisa arredia né? Uma coisa de uma espécie de exílio assim artístico também e particularmente gosto muito de ‘Onda’, uma música que ele mostra todos os dotes também não só como compositor, mas vocais e instrumentais de guitarra. Cassiano é uma pedra fundamental filosófica da nossa Soul Music”, afirma.

Cassiano na capa do álbum de 1976 em que apresentou a balada 'Coleção' — Foto: Reprodução

Cassiano na capa do álbum de 1976 em que apresentou a balada ‘Coleção’ — Foto: Reprodução

‘Ele é puro talento’ – Gorky (Poolside e Fatnotronic)

Através do samplers, rappers e DJs como a dupla Poolside, que estourou no Brasil com o um remix de Onda, apresentam um movimento de revalorização da música que parecia ter ficado no passado.

“Onda é uma de suas músicas mais psicodélicas, com mais de 6 minutos de puro jam e letras simples, quase como um mantra, escolher essa música foi fácil!”, disse o DJ e produtor dos projetos Poolside e Fatnotronic, Gorky.

Ele comenta que Cassiano sempre foi um de seus artistas preferidos e quando sua versão de ‘Onda’ toca nas baladas, é sempre um chuva de perguntas sobre quem está cantando – além de muitos elogios.

“Eu sinto que se mais pessoas fora do Brasil o conhecerem, ele automaticamente estará nos ouvidos de todos em pouco tempo, porque ele é puro talento”, pontua.

‘Foi como se tivesse perdido um ente querido’ – Fontes

Não só isso, o carinho de artistas renomadas por Cassiano, que vai de Marisa Monte, Ana e até Mano Brown (“ouvindo Cassiano, hah, os gambé não guenta”), fez com que uma leva de pessoas mais jovens achassem o gênio nas plataformas de streaming.

Foi assim que o músico e publicitário de 25 anos Marcelo Fontes virou fã. Durante uma entrevista para um festival de música, Seu Jorge respondeu que o maior nome do soul brasileiro era Cassiano.

Marcelo, na época com 15 anos, ficou doido com a referência porque ele já tinha ouvido falar sobre Cassiano na música de Racionais Mcs, ‘Vida Loka (parte 2)’. Com isso, foi pesquisar o nome.

Exemplar de 'Cedo ou tarde' (1973) de Cassiano, o vinil mais precioso da coleção do rapper Fontes — Foto: Marcelo Fontes/Arquivo pessoal

Exemplar de ‘Cedo ou tarde’ (1973) de Cassiano, o vinil mais precioso da coleção do rapper Fontes — Foto: Marcelo Fontes/Arquivo pessoal

Para uma pessoa que vê a música com sua religião e uma ferramenta de desenterrar emoções, ele se surpreendeu com a facilidade de Cassiano em evocar seus sentimentos através de melodias:

“É uma parada muito singular e que quase ninguém consegue com tanta facilidade, com tanta maestria: saber exatamente a nota que você tem que colocar para despertar aquele sentimento nas pessoas; você conseguir encaixar as palavras que quer falar na melodia que você quer passar e que você criou pra aquilo… música não é uma parada fácil de acontecer, embora seja muito intuitivo eu acho que a gente tem que valorizar muito quando a gente ouve alguém, encontra alguém que sabe fazer aquilo muito bem, sabe?”, explica.

E é exatamente essa sensibilidade, movida pela reafirmação da cultura negra, que ele tenta trazer para sua música: é sobre criar mais possibilidades dentro do que a melodia tem a oferecer.

Quando foi diagnosticado com ceratocone em 2018, a música de Cassiano fez companhia a Fontes até ele conseguir o transplante de córnea pelo SUS, em 2021.

Vinil mais importante de sua coleção, ‘Cedo ou tarde’ estava tocando quando ele recebeu a notícia que uma córnea tinha chegado para ele.

No dia do procedimento, ele não podia usar fones de ouvido, mas usou a música do mestre para se sentir mais forte:

“Comecei a imaginar músicas na minha cabeça como se eu tivesse ouvindo. E a música que ficou em loop na minha cabeça é a música ‘Luva’ do Cassiano. Passei a minha cirurgia inteira, duas horas e meia, imaginando essa música como se eu estivesse ouvindo”, disse.

A recuperação foi difícil, quase dois meses no escuro, sem poder fazer muitos movimentos e sentindo muitas dores. Novamente ‘Cedo ou tarde’ o trouxe um pouco de sanidade.

Porém, no meio da sua recuperação Cassiano veio a falecer. “Lembro como se fosse hoje quando eu recebi a notícia. Estava no meu quarto e minha mãe entrou bem devagarzinho. E aí me contou e eu lembro que chorei muito, foi como se tivesse perdido um ente querido justamente porque ele era muito importante pra mim, também por essa relação que eu construí ainda mais forte com ele durante a minha cirurgia…”

Cassiano — Foto: André Arruda / Divulgação

Cassiano — Foto: André Arruda / Divulgação

‘Legado da cultura black no Brasil’ – Sandrinho Dupan

Para o músico e curador museológico, Sandrinho Dupan, a soul music brasileira tem dois pais: Tim Maia e Cassiano.

Tim Maia como arranjador, como cantor, como intérprete, e Cassiano como esse cara que tinha essa sacada da forma de cantar, da forma do comportamento do instrumento, o conceito. Eles deixam o legado da cultura black no Brasil”, afirma.

Na memória dele, a ‘A Lua e Eu’ é a que mais toca, muito por influência de seu pai que sempre ouvia Cassiano pela casa.

Apesar de ser muito fã, músico e nascido na mesma cidade que o mestre,Campina Grande, ele nunca chegou a conhecer Cassiano, mas tentou.

Coordenador do Museu dos Três Pandeiros da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), ele tentou trazer o ídolo para uma homenagem, mas ele se recusou e, por opção, não dava entrevistas:

“Estava muito triste com os rumos do mercado fonográfico, e a gente só tinha que respeitar, mas sobretudo enaltecer a obra dele”, disse Sandro.

Para quem é fã, não é novidade que Cassiano andava recluso em seu apartamento na zona sul do Rio de Janeiro. Porém nunca parou de viver de música, mesmo que injustiçado pelo ostracismo.

*Sob supervisão de Jhonathan Oliveira e Krys Carneiro

Fonte: G1 Globo TV Paraiba

   

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