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André Midani um dos grandes nomes da indústria fonográfica nos deixou este mês | Folha da São Paulo

 


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Quem diz que gravadoras sempre preferiram dinheiro a artistas nunca ouviu falar de André Midani.

O executivo, que morreu nesta quinta (13), aos 86 anos, no Rio de Janeiro, combinava um apurado tino comercial a uma paixão imensa pelos artistas. Em uma carreira de mais de 60 anos, Midani tomou muitas decisões corporativas que pareciam equivocadas, apostando em discos de apelo comercial reduzido. Mas foi graças a essas apostas que a música brasileira ganhou alguns de seus maiores clássicos.

Hoje é fácil elogiar os Mutantes e sua genial combinação de música pop e experimentalismo. Mas o público esquece um detalhe importante: os Mutantes vendiam pouquíssimos discos. Foi necessário um chefe de gravadora com pulso firme e convicção inabalável para manter a banda sob contrato.

Na virada dos anos 1960 para 1970, Midani comandava dois selos: o Philips, que reunia a nata da MPB —Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Jair Rodrigues, Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil, Jorge Ben, Raul Seixas e Wilson Simonal, entre ​outros—, e o Polydor, de artistas mais “populares”, como Tim Maia, Evaldo Braga, Odair José e Hyldon. Midani usava a grana que ganhava com os campeões de venda para investir em artistas que vendiam menos.

Assim, bancou vários discos transgressores e de pequeno apelo comercial, como o dilacerante “Lóki?” (1974), primeiro disco solo de Arnaldo Baptista depois de sua saída dos Mutantes, e “A Tábua de Esmeralda” (1974), de Jorge Ben, uma “ópera” mística, espiritual e cósmica, com 12 músicas que abordavam a história de dois alquimistas, (1330?-1418) e Paracelso (1493-1541).

Outra aposta ousada foi “Gita” (1974), segundo disco solo de Raul Seixas, uma ode ao ocultista britânico Aleister Crowley (1875-1947), um bruxo que se autoproclamava a “Grande Besta 666” e defendia o sexo livre e o uso de drogas.

“Lóki?” e “A Tábua de Esmeralda” não venderam bem, enquanto “Gita” foi um estouro. Mas todos viraram clássicos.

Em 2012, entrevistei Midani e perguntei por que havia lançado discos tão anticomerciais nos anos 1970, como “Araçá Azul”, um LP experimental de Caetano Veloso que bateu recorde de devoluções em lojas: “Porque eu achei, com toda sinceridade, que ia vender. Na minha cabeça, aquilo seria um estouro. Não quero me atribuir um papel de Dom Quixote, mas eu achei que ia vender, e quebrei a cara”.

Midani confiava nos artistas e pensava a longo prazo. No início dos anos 1970, contratou Erasmo Carlos, que passava por um momento de ostracismo. A Jovem Guarda tinha acabado e seus integrantes eram malhados pela crítica e sofriam patrulha de outros artistas, que os recriminavam por ter feito música comercial e considerada de baixa qualidade.

Em uma entrevista a Ruy Castro, publicada na revista Playboy, Erasmo afirmou: “O André Midani me disse: ‘Você vai gravar o que quiser, com quem quiser, da forma que quiser. Faça o que você quiser, mas faça. É importante qualquer coisa que você crie’.” O resultado foi “Carlos, Erasmo”, um LP audacioso, com influências de samba-rock, soul music e rock psicodélico, até hoje um dos melhores da carreira do Tremendão.

Em 1989, quando já comandava a gravadora Warner, André Midani recebeu um telefonema de Marcelo Nova, ex-líder da banda de rock Camisa de Vênus. Marcelo preparava um disco solo e pediu a Midani para dividir o LP com seu ídolo, Raul Seixas.

Midani tinha todos os motivos do mundo para não topar: Raul era, então, uma figura escorraçada no meio musical. Para piorar, o Maluco Beleza havia ironizado Midani na letra de “Conversa pra Boi Dormir” (1980): “André Sidane só faz confusão / Sonhei com ele e mijei no colchão”. Mas André Midani topou contratar Raul. Em 19 de agosto de 1989, a Warner lançou o LP “A Panela do Diabo”. Dois dias depois, Raul Seixas morreu.

Fonte: Folha da São Paulo

   

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