Hyldon

As Coisas Simples da Vida

Festa Brasileira no Rock In Rio Lisboa

 

A segunda ronda desta 5ª edição do Rock In Rio Lisboa coincidiu com o Dia da Criança. Acompanhados por cerca de 400 crianças de várias IPSS de norte a sul do país, Roberta Medina e Luís Figo deram as boas vindas aos primeiros festivaleiros, que entraram já na habitual correria com vista a garantir os muitos concorridos lugares na primeira fila do Palco Mundo.

Festa a vários ritmos   O repto foi de festa, lançado à “party people” mal os Expensive Soul pisaram o chão do Palco Mundo, e assim foi cumprido, numa euforia contagiante protagonizada a meias com o público catraio sabedor, comprovando que o duo matosinhense fora uma escolha acertada para abertura do palco, neste terceiro dia de festival.   Em modo boas-vibrações, o alinhamento foi-se desenrolando, por entre muito charme lançado às meninas. Metros abaixo, a festa prosseguiu, fazendo jus à abordagem da banda, com braços balançantes no aquecimento para a descarga de energia adivinhada com a entrada em cena da sempre frequente, no que a lides de Rock in Rio diz respeito, Ivete Sangalo. Mas o português cantado por New Max e Demo é outro, quiçá menos melodioso, mas suave nas ambiências R&B e soul em que se constrói, e assertivo nas palavras debitadas em rap, numa simbiose pop que facilmente conquistou os presentes esta tarde.   O concerto ficou ainda marcado pela entrada dos atletas olímpicos e paralímpicos portugueses que irão competir nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, e foi encerrado ao som do Hino Nacional.

“Meus amores, estou em casa”, assim se dirigiu Ivete Sangalo ao imenso público que se juntou para a ouvir, composto não só por fãs portugueses mas por muitos brasileiros, sobretudo residentes em Portugal, que não perderam a oportunidade para atenuar as saudades de casa e ostentarem um fortíssimo orgulho nacional.   Do alto do trono de rainha da música popular brasileira, Ivete Sangalo ordenou que o pé ficasse fora do chão, e assim acataram os súbditos deste pequeno reinado na Cidade do Rock, ora livremente, ora correspondendo às coreografias levadas a cabo pela cantora mais o incansável corpo de baile de que se fez acompanhar.   De um alinhamento de 17 canções, com Easy dos Commodors à mistura, muitas seguiram-se em catadupa, outras contaram com breves pausas para uma ou outra declaração de amor para com o público. Com Sorte Grande levantou-se ainda mais poeira do que aquela espalhada pelo recinto, colada em camadas na pele e nos pertences dos festivaleiros. Um momento de euforia máxima, igualado mais tarde com Arerê, que Ivete Sangalo já cantava nos tempos de estrela maior da Banda Eva, e com País Tropical, esse hino de celebração do Basil, bem presente na memória comum dos portugueses, e que rematou a performance da diva brasileira.

Os Maroon 5 entraram em palco também já com uma quota de público ganho, sobretudo no que toca ao público feminino, que não se coibiu de demonstrar afeição pelo vocalista, Adam Levine, através de gritinhos eufóricos a cada rápida intervenção.   Pode dizer-se, comparativamente à atuação anterior, que nem os Maroon 5 ficam atrás em termos de energia, nem os fãs no que respeita a dedicação. Ao segundo tema já a juventude se encontrava rendida (e justificada), de braços no ar e cantoria pronta, tendo sido seguidamente premiada com This Love.   Por entre malabarismos de guitarra, a provarem que é pelas proezas rock que se fazem valer em palco, sob liderança do muito tatuado Levine, a banda passou por êxitos da fornada MTV, de que é exemplo o mais recente sucesso Moves Like Jagger, com o vocalista a protagonizar uns movimentos demasiado contidos para infelicidade da miudagem.   De falsete em falsete, e mais afinadinho do que seria de prever, Levine, que até nos cantou um pouco da Roxane, dos The Police, apropriadamente iluminada em tons vermelhos, dedicou a última canção She Will Be Loved, às ladies, que tão bem vindo o hão de ter feito sentir.

Retornado aos palcos lusitanos, Lenny Kravitz apostou num alinhamento celebrante de uma extensa discografia, onde uma ou outra novidade distanciada dos êxitos de outrora, foi levando a algumas desistências. Apesar dos muitos que se mantiveram, entre as 74 mil pessoas contabilizadas pela organização do certame, ao longo do concerto foram visíveis várias debandadas, principalmente com a aproximação com o horário de encerramento do metro.   Rock Star por excelência, quer pela indumentária, quer pela atitude sedutora em permanência, Kravitz fez-se acompanhar por ótimos músicos e por um complemento cenográfico de projeções vídeo condizentes com a temática das canções. Por exemplo, em Mr. Cab Driver o público viu-se teletransportado para o trânsito caótico das ruas de Nova Iorque, a bordo de um táxi amarelo.   O público que se foi mantendo até ao final, mostrou-se reverente, entre aplausos e gritos pelo cantor, cujo primeiro nome fora entoado por várias vezes, e os agradecimentos, do topo do palco, lá foram chegando: “Quero agradecer-vos por teres escolhido estar connosco esta noite”, “Tenho-vos amor e respeito, por darem propósito às nossas vidas”.   Fly Away, do já velhinho “5”, trouxe palco reminiscências do sucesso estrondoso que alcançou em 98, tendo vindo a provar-se o momento mais alto da atuação de Kravitz. Seguiu-se a não menos emblemática Are You Gonna Go My Way, ainda a atestar a vertente rockeira da noite, a dar caminho, já no encore, a Let Love Rule, numa versão prolongada, terminada com fogo-de-artifício.

Algures em ‘Chelas City’   A relva sintética frente ao Palco Sunset pode muito bem não convidar a pic-nics, até por já se encontrar em condições menos próprias, mas ainda cumpre função de assento para os momentos chill out de início da tarde, com o público espalhado pelo chão, ou pelos insufláveis vermelhos ofertados, de copo de caipirinha na mão e alguma conversa para pôr em dia.   Este ambiente vivido durante a abertura protagonizada pela Orquestra Todos, correu o risco de se repetir durante a prestação dos Black Mamba, não fosse a persistência da banda em chamar o público à frente e o ventinho de fim-de-tarde a enganar o calor abrasador vivido em Lisboa.   Os Black Mamba acabaram de lançar o primeiro registo de originais e vestem literalmente a camisola: para além da t-shirt da banda vestida pelo baixista, exibiram o poster promocional e convidaram o público a passar na loja de discos da Rock Street (pequena área comercial moldada a Nova Orleães), localizada na Cidade do Rock, onde têm o trabalho à venda.   A convite, Tiago Bettencourt juntou-se à festa soul/funk. Fundiram-se os ritmos e as tonalidades vocais distintas dos diferentes repertórios, por entre divagações “sobre viagens e pessoas que se encontram e acrescentam qualquer coisa”. Com as letras ainda na ponta da língua e a emotividade à flor da pele, público e Tiago cantaram Carta, dos extintos Toranja, praticamente em uníssono, naquele que terá sido um dos pontos mais altos vividos no Palco Sunset.   Com dois convidados vindos “diretamente do Brasil para ‘Chelas city’”, nomeadamente Hyldon de Sousa Silva, representante da soul baiana, e o experimentalista Alexandre Kassin, os Orelha Negra remisturaram o fim-de-tarde deste terceiro dia de Rock in Rio Lisboa. Os sctraches e os samplers, assentes numa base instrumental reforçada por duas guitarras, ganharam uma dimensão mais acalorada, com ritmos e sonorizações roubadas ao outro lado do atlântico, cuícas fingidas e muito tropicalismo.   À super-colaboração Boss AC, Zé Ricardo (o também programador do Palco Sunset), Paula Lima e Shout, coube a missão de encerramento deste palco “secundário” no dia ontem, resultante numa miscelânea de géneros, entre hip-hop, salsa, gospel e muito samba.   Vivida uma atmosfera tão dançável, o público facilmente cedeu aos apelos rítmicos e até Boss AC foi “obrigado” a dançar um sambinha, a pedido da colega Paula Lima: “O Boss AC me disse que ele samba para caramba!”.   Guardados para o final ficaram Sexta Feira (Emprego Bom Já), curiosamente concordante no dia da semana, e Baza Baza (Hoje Não Quero Saber), os dois temas mais aclamados da discografia do rapper português, cantados esta noite.   Nos intervalos…

Os Julie and the Car Jackers inauguraram a programação diária do espaço Vodafone Showcase com um solarengo “bossa-rock” do qual nos apresentaram alguns temas de “Parasol”, disco de estreia.   Ao rock de Os Velhos, seguiram-se os doismileoito, responsáveis pela maior enchente, até à data, junto ao pequeno palco vermelho. Para além desta pequena proeza, puderam contar ainda com público conhecedor, que se juntou à banda na interpretação dos temas com maior rotação radiofónica, como Quinta-Feira e Bem Melhor.   O fecho do palco ficou a cargo dos texanos White Denim.

Apesar das ameaças de chuva, o Rock in Rio prossegue este fim de semana, tendo Stevie Wonder e Bruce Springsteen como cabeças de cartaz.

   

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