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Hyldon, ícone da era soul brasileira traz poesia-desabafo sobre racismo em novo álbum | Alma preta

 

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Em entrevista ao Alma Preta, o músico de 69 anos compartilha experiências de discriminação racial que inspiraram o disco, como ser seguido por segurança no shopping

A fusão entre a música negra norte-americana e o suingue afro-brasileiro marcou uma geração de músicos talentosos surgidos nos anos 1970 e também influenciou a luta dos Direitos Civis na década anterior. Integrante dessa geração, o cantor Hyldon, 69 anos, conhecido pela balada “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, de 1975, lançou o álbum “SoulSambaRock” e em uma das faixas faz um levantamento histórico sobre o racismo no Brasil. A música se chama “50 Tons de Preto” e o artista a define como uma “poesia-desabafo”.

“Foi muito doloroso. Fiz uma volta à minha infância, as coisas que eu ouvia quando era pequeno. Teve uma hora que eu até pensei em tirar ela [do disco] ficou muito íntima. Às vezes acontece de eu estar no shopping, ou na praia, e alguém então esconde uma bolsa, põe a mão na corrente. É constrangedor. Você se sente ofendido, se sente mal”, diz Hyldon, em entrevista ao Alma Preta.

A experiência de ser seguido por seguranças dentro de um shopping, inclusive, é mencionada na faixa que tem o refrão: “Orgulho de ser negro. Sou negro, sim. E daí? Sou negro”.

A letra sobre negritude, mestiçagem e racismo é resultado de estudos, leituras, conversas e lembranças da infância. As viagens que fez para os EUA desde os anos 1970 também inspiraram parte da música.

“Esse questionamento sobre o racismo vem de várias coisas que aconteceram comigo e que eu vi acontecerem à minha volta. No Brasil, existe um racismo velado. Nos EUA, o racismo é mais marcado. Lá o branco fez o negro ir na igreja deles, por exemplo, e não tem candomblé. O negro foi muito segregado e teve que se comportar no modelo dos brancos. Aqui a cultura negra sobreviveu mais, por outro lado, o racismo sempre esteve forte”, conta o músico.

Além das experiências de vida, Hyldon se inspirou em histórias aprendidas em livros como o “Dicionário da Escravidão e Liberdade” e as obras de Machado de Assis para falar do racismo que moldou a estrutura da sociedade brasileira e da classe dominante, formada por brancos.

“Salve África, mãe África. Me capturaram e jogaram no porão de um navio negreiro. Muitos morreram na longa viagem e seus corpos eram jogados no mar. Vim parar no Brasil. Fui vendido como escravo. Há 400 anos tento me libertar. Os grilhões e correntes são fortes. Estão enraizadas no coração e na alma do homem branco”, diz um trecho da letra de “50 Tons de Preto”.

O “SoulSambaRock” é o 16º álbum do Hyldon e traz ainda críticas sociais intercaladas com uma empolgante compilação de ritmos. Em três faixas, o cantor fala sobre a desigualdade e a situação do Brasil. “Eu vejo que está aumentando o orgulho negro. Tem uma representatividade boa na arte, mas precisa ter também na economia e na política. Por isso, eu sou a favor das cotas e de uma educação de base forte para que os negros e pobres possam ter umas ascensão social”, defende.

Álbum já nas plataformas digitais.

Texto: Juca Guimarães | Edição: Nataly Simões | Imagem: Divulgação

Fonte: Alma Preta

   

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