Hyldon

Zondag in Amsterdam

Hyldon: “Sou mistura de índio, português e preto. Sempre sofri racismo” | Carta Capital

 

Em novo álbum, o músico grava faixa sobre preconceito que viveu e presenciou

O cantor, compositor e guitarrista Hyldon, 69 anos, lança seu 16º álbum da carreira. Um trabalho que mostra várias de suas vertentes, indo muito além de seu grande sucesso, simplório, regravado dezenas de vezes por vários intérpretes: Na Rua, Na Chuva, na Fazenda (1973).

SoulSambaRock, como o título do álbum sugere, caminha pelas inspirações de Hydon desde no início de sua carreira, na década de 1970.

“Minha turma, Cassiano, Tim (Maia), Banda Black Rio, fazia música influenciada pela música negra americana. O funk na época era um soul mais dançante. Do samba soul, a música que me vem a cabeça é a do Edson Trindade, que o Tim gravou, Gostava Tanto de Você”, descreve.

“Em São Paulo tinha um movimento que era uma dança da mistura do samba com rock and roll dançada por casais. Eu era guitarrista delas. Tinha uma levada. Camisa 10 e Mais Kriola, ambas do Helinho Matheus (a primeira é uma parceria com Luis Vagner), têm isso”.

Hyldon foi influenciado pela soul music, o samba, o rock e também o baião, reflexo de sua origem baiana.

A terceira música das dez do novo trabalho de Hyldon tem o nome de SoulSambaRock, Sou. A composição é dele com o trombonista Marlon Sette e expressa as fusões de seu trabalho.

A quinta faixa, Vida que Segue, foi composta por Hyldon exclusivamente para integrar o último álbum da Gal Costa, lançado em 2018. O seu lado compositor sempre foi intenso. Antes de se firmar na carreira solo Hyldon já tinha parceiros de Jerry Adriani a Wilson Simonal.

“Tenho muito orgulho quando alguém grava uma música minha. É um outro tipo de prazer. O compositor que existe em mim é o cara do nada que cria uma música. É a maior satisfação quando termina”.

Marisa Monte começou a disponibilizar recentemente em áudio streaming canções gravadas em VHS e DVD, e mais uma música inédita. Essa inédita trata-se da composição Acontecimento, de Hyldon, que já teve gravações no passado com outros intérpretes, mas a cantora apresentava a música em seus shows da turnê do álbum Memórias, Crônicas e Declarações de Amor.

O fato é que no DVD deste projeto a música de Hyldon ficou de fora: “Assisti ao show em 2001, mas fiquei frustrado que não entrou no DVD. Aí, a Marisa resolveu relançar. Ainda bem que ela é organizada. Foi um presentaço que recebi esses dias”.

Discriminação

No álbum SoulSambaRock chama a atenção a sétima música 50 Tons de Preto. Não, não tem relação com a trilogia “Cinquenta Tons”. Tem sim uma forte e contundente mensagem de Hylton contra a discriminação racial.

“Sou mistura de índio, português e preto. E sou nordestino. Em sempre sofri racismo, discriminação”, diz. “Vim de uma casa muito pobre na Bahia, que o chão era de terra. O banheiro era atrás da casa, numa foça. Graças a Deus consegui sair dessa”.

Conta ele de um trauma de infância, quando morava em Niterói e sua avó o levou para estudar música no conservatório. “Chegando lá minha vó perguntou como fazia para me matricular. Aí o cara falou que tem que ter pistolão. Tinha 9 anos. Isso criou um trauma”.

Hyldon aprendeu música de ouvido. “Não sei ler música. Queria tanto estudar música. Queria ser compositor de música clássica”. O cantor e compositor aprendeu tudo sozinho e desde o início da carreira fez seus arranjos, além de produzir seus discos e de artistas como Erasmo Carlos e Odair José.

“A música 50 tons são as nuances daquele negro azulão e do mulato claro, que é meu caso. É sobre isso. Conto histórias que aconteceram comigo e vi acontecer. Eu tinha uma secretária que era mais negra que eu e dizia que não era negra – por causa de tanto sofrimento sente vergonha da cor”.

Diz ele que isso acontece também os descendentes de índio, que não admitem ser reconhecidos como tal. “Eu sofro preconceito, ainda hoje. Já vi gente segurando bolsa e cordão perto de mim no shopping”.

De seu jeito, Hyldon conta a sua visão da história na letra 50 Tons de Preto, aqui abaixo apresentada:

ÔÔÔÔÔ

Orgulho de ser negro

Sou negro Sim

Sou negro e daí?

Sou Negro

50 tons de preto

moreno pardo mulato

eu não sou negro

eu não sou branco

amarelado …de cabelo enroladin

Os negros dizem que eu estrago a raça

As senhoras seguram a bolsas quando eu passo

As garotas brancas atravessam a rua com medo

Quando eu só queria elas pertin, pra vadiar, dar uns beijim

Os seguranças do shopping me seguem

Quando vou com meus amigos dar um rolezim

Afinal, quantas cores existem entre o branco e o preto?

Sou negro sim mas sou índio também

Minha vó era negra, minha mãe mulata

Meu pai, meu “paim” que eu só vi duas vezes

depois que já era rapazim

Era filho de imigrante português

E agora qual é a minha cor? Qual é?

Só sei Que sou gente igual vocês

São 50 tons de preto

O que me importa é que sou verde esperança

Amarelo do ouro roubado do meu Brasil

Sou branco da Paz

Sou preto dos negros exterminados

Dos pobres injustiçados

Sou moreno dos índios dizimados…

Corre nas minhas veias o sangue Pataxó,

Na minha mente a escrita de Machado de Assis

Amulatando meus ais sem dó,

Ai! Ai! Ai! Sem dó

ÔÔÔÔÔ

Orgulho de ser negro

Sou negro Sim

Sou negro e daí?

Sou Negro

Da cor do ébano

Da noite escura, da cor do carvão

Mas o carvão pode ser transformar num diamante

Se for lapidado,

Se for lapidado com arte

Se for lapidado com amor

Se for lapidado com arte

Se for lapidado com amor

 

Fonte: Carta Capital

   

Voltar