Hyldon

As Coisas Simples da Vida

Release – Soul Brasileiro

 

 

Hyldon lança primeiro disco só de inéditas desde 1989, com participação de grandes nomes da música brasileira
(Por Christina Fuscaldo)

“Soul Brasileiro” não é apenas mais um disco de Hyldon, o soulman que se destacou nos anos 70 com “Na Rua, na Chuva, na Fazenda”: é o seu primeiro só de inéditas desde 1989 (em 2003, “O Vendedor de Sonhos” trazia músicas novas, releituras e gravações originais de seus clássicos). Isso e o fato de misturar pop, samba, soul, choro e forró não são as únicas coisas interessantes que este novo trabalho do músico baiano radicado no Rio traz. No novo CD, Hyldon divide suas músicas com letristas e as letras, com musicistas. Vozes femininas e masculinas dão o tom a algumas canções enquanto grandes músicos se divertem acompanhando a cantoria,entre eles; Chico Buarque, Zeca Baleiro, Carlinhos Brown, Frejat… Hyldon mostra-se um ótimo anfitrião desses 30 grandes nomes da música brasileira e apresenta suas mais novas parcerias.

Chico Buarque toca kalimba em “Medo da Solidão”, faixa que, com uma levada pop e dançante, abre o disco.

“Essa música fala sobre o pavor de baratas, trovão, avião… Mas o maior medo do ser humano é o de ficar sozinho. São medos que carregamos desde crianças, por isso tive a idéia de colocar o som de uma caixinha de música. Como estava trabalhando com instrumentos de percussão indígenas e africanos, pensei na kalimba e lembrei que Chico havia usado uma em um show seu que assisti. Fiz o convite e ele achou divertido participar como músico e levou muito `a sério, conta Hyldon.

Zeca Baleiro enviou uma letra para Hyldon transformar em um samba-soul. O músico maranhense passou a chamar “A Moça e o Vagabundo” de “árido soul”. “Ela ficou com cara de música do interior”, diz Hyldon, que ainda contou com a viola caipira de Zé Menezes. Este senhor de 84 anos, que já acompanhou Carmen Miranda no palco, tocou também em “Forró da Boca Pequena”, que tem ainda a sanfona de Zé Américo.

De passagem pelo estúdio da Warner Chapell, onde grande parte de “Soul Brasileiro” foi gravado, Frejat empolgado com o som, se ofereceu para colocar guitarras no disco. Relembrando o encontro com o líder do Barão Vermelho na terra da garoa no ano em que lançou seu último disco de inéditas, Hyldon resolveu convidar o amigo para mostrar seus dotes em “Aquele Rapaz de São Paulo”, essa sim, um soul que faz lembrar os clássicos da década de 70. A música é uma das poucas composições antigas do repertório. A outra é “Três Éguas, um Jumento e uma Vaca”, escrita para Emílio Santiago em 1972. Na época – conta Hyldon – o produtor Roberto Menescal pediu para que a palavra “jumento” fosse substituída. O soulman preferiu guardar o samba-rock, que, para o novo disco, ganhou o trombone de Marlon Sette. Este também participa em “Domingo Triste”, mais um soul à moda antiga.

“A Viola e a Moringa (Guinguiniana)”, instrumental dedicada a Guinga, tem vocal de Alessandra Verney, estrela do musical “7”. Outra cantora que emprestou a voz para o disco foi Karla Sabah, em “O Último Latino-americano”, música de Hyldon com Mauro Santa Cecília, em que o poeta recita um pedaço da letra: “Em todas essas músicas, as vozes funcionam como instrumentos. Em geral, minha voz é a principal e toco os violões.” Dalto, Carlos Dafé, Jorge Vercillo, Tunai e Carlinhos Vergueiro unem seus diferentes timbres para fazer vocalizes e cantar o refrão de “O Vento que Vem do Mar” (a música tem só uma frase, “Vem um vento lá do mar”).

O mar não está presente somente na letra desta canção e em “Copacabana Beach” ele aparece também na fotos de César Oiticica que ilustram o CD – o projeto gráfico leva a assinatura de Zoé Medina – e nas citações de “Bahia do H”, que exalta alguns pontos turísticos de Salvador, terra natal de Hyldon. A música conta com vocal de Janete Santana – que também canta em “Forró da Boca Pequena” – e com o auxílio luxuoso de Carlinhos Brown, que toca baixo, bateria, berimbau, claves, congas, keyboards, percussão eletrônica e ainda assina a produção musical da faixa. Hyldon dedica ao parceiro baiano “O Choro de Brown”, chorinho de primeira com letra que cita outros grandes nomes da música brasileira:

“Como eu queria ouvir um choro / Um choro com suingue do Carlinhos Brown / Uma melodia tipo a do Tom / João tocando violão / Sei que muita gente iria se amarrar/ se o Chico compusesse a letra da canção / Todo mundo iria se apaixonar/ pelo novo choro de Brown.”

“Brazilian Samba Soul” é soul para sambar… Até que chega MC Yasmin, filha de Hyldon, e declama junto ao pai: “Sou brasileiro no batuque do pandeiro / Sou bacana, sou maneiro, mas não vem me provocar / Eu sou ligeiro, não me vendo por dinheiro / Sou mestiço, quizombeiro, mandingueiro e coisa e tá (…)”. Abusando da máxima “Quem não pode com mandinga não carrega patuá”, Hyldon convida todo mundo para dançar com “Kankú Mussá, o Guerreiro Africano”.

Hyldon assina com Cézar Delano a produção de “Soul Brasileiro”, gravado de forma totalmente independente entre Rio, Salvador (Carlinhos Brown) e São Paulo (Zeca Baleiro). O CD está sendo lançado pelo seu próprio selo, o DPA Discos, com distribuição da Microservice.