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Gal Costa enfrenta e embaralha as pistas do tempo no traço luminoso do álbum ‘A pele do futuro’ | G1 Pop & Art

 
Divulgação / Bob Wolfenson

Divulgação / Bob Wolfenson

Gal Costa enfrenta e embaralha as pistas do tempo no traço luminoso do álbum ‘A pele do futuro’

Aos 73 anos, completados em 26 de setembro deste ano de 2018, Gal Costa traz na voz a ação e as camadas de tempo plural que já atravessa seis décadas de música se contabilizado o efeito provocado pela revolução da Bossa Nova na vida dessa cantora baiana ainda conhecida em 1958 como a tímida Gracinha.

Devota fervorosa do papa João Gilberto convertida em musa pop da contracultura tropicalista já na segunda metade dos anos 1960, Gal enfrenta e embaralha as pistas desse tempo no traço luminoso do 40º álbum, A pele do futuro (Biscoito Fino), lançado em CD e em edição digital na última sexta-feira, 28 de setembro.

A pele do futuro se insere dentro do processo de revitalização da discografia de Gal, iniciado há sete anos por iniciativa de Caetano Veloso, mentor do álbum Recanto (2011), título divisor em discografia que deu preocupantes sinais de acomodação e nostalgia ao longo dos anos 2000, em que pese a solitária tentativa de atualização esboçada no álbum estrategicamente intitulado Hoje (2005).

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Recanto foi mergulho profundo no universo pop contemporâneo com altas doses de eletrônica e experimentação, necessárias naquele momento para espanar a poeira da letargia. O show de 2012 decorrente do disco rejuvenesceu o público de Gal e abriu caminho, entre 2013 e 2014, para a continuidade do processo de renovação de repertório que culminou com a edição do álbum Estratosférica (2015).

Arquitetado por Marcus Preto, diretor artístico de A pele do futuro, Estratosférica manteve Gal na vibe indie, mas abriu janela pop que se descortina com mais luminosidade no disco ora lançado com 13 músicas, sendo 12 inéditas.

Entrelaçando compositores novos e antigos, A pele do futuro vem sendo apresentado como um disco imerso na black music da década de 1970. Um álbum que joga Gal na pista da disco music, como surpreendeu em 24 de agosto o single Sublime, samba do compositor paulistano Dani Black transformado pelo produtor Pupillo Oliveira em disco-funky que clona a batida-clichê dos frenéticos dancin’ days.

Gal Costa canta balada enviada por Adriana Calcanhotto para o anterior álbum de estúdio — Foto: Divulgação / Bob Wolfenson

Gal Costa canta balada enviada por Adriana Calcanhotto para o anterior álbum de estúdio — Foto: Divulgação / Bob Wolfenson

A pele do futuro é isso também. Mas não somente isso. É no emaranhado das camadas do tempo que o disco se agiganta, oferecendo a oportunidade de ouvir inédito samba sinuoso de Djavan, Dentro da lei, com os toques de músicos de outra geração como o baixista Bruno Di Lullo e o guitarrista Guilherme Monteiro – ousadia que o próprio compositor ainda não se permitiu.

Gal mistura as lâminas do tempo quando dá voz a Vida que segue, resignada balada da lavra de Hyldon – compositor baiano de soul que fez sucesso nos anos 1970 e que até então permanecia inédito na discografia da cantora conterrânea – com cordas orquestradas por Felipe Pacheco Ventura, violinista e guitarrista da banda indie carioca Baleia. É o antigo filtrado pelo novo.

A pele do futuro também subverte a noção de tempo quando passa o novo – no caso, a obra da cantora e compositora sertaneja Marília Mendonça – pelo filtro do antigo. No caso, a recorrente disco music, musa inspiradora da faixa aditivada com os vocais de Céu, Filipe Catto e Maria Gadú. A despeito de ser a única música já previamente lançada em disco, no caso pelo cantor paraense Israel Novaes em 2015, a aliciante Cuidando de longe (Marília Mendonça, Juliano Tchula, Junior Gomes e Vinicius Poeta) é o grande hit possível do disco no mercadão pop da atualidade.

A sofrência da hitmaker sertaneja se dilui no arranjo cintilante criado para evocar a vibe positivista de superação de I will survive (Freddie Perren e Dino Fekaris, 1978), grande sucesso da cantora norte-americana Gloria Gaynor.

Marília Mendonça e Gal Costa cantam juntas música da 'hitmaker' sertaneja lançada pelo cantor Israel Novaes em 2015 — Foto: Divulgação / Carol Siqueira

Marília Mendonça e Gal Costa cantam juntas música da ‘hitmaker’ sertaneja lançada pelo cantor Israel Novaes em 2015 — Foto: Divulgação / Carol Siqueira

té um rock de Erasmo Carlos – Abre-alas do verão, assinado com o rapper Emicida – brilha na pista dançante de A pele do futuro, tratado com a atmosfera black retrô de parte do disco. E brilha porque o nome da cantora de voz cristalina é Gal, musa de qualquer estação, como sentenciou o Tremendão em 1969 e em 1985 em músicas feitas por ele (com Roberto Carlos) para a artista.

A pele do futuro segue caminho solar. Balada enviada por Guilherme Arantes, Puro sangue (Libelo do perdão) é sopro matinal que se aquece na direção do sol com o tratamento funky à moda do grupo norte-americano Earth, Wind & Fire.

Alforriada das canções melosas nessa pista reluzente em que até o rei indie da sofrência Tim Bernardes enxerga a luz no toque do ijexá Realmente lindo, Gal se permite adensar o clima musical e poético em Livre do amor, balada enviada pela iluminada compositora Adriana Calcanhotto para o álbum Estratosférica, limada da seleção final do repertório do disco de 2015 e enfim apresentada no toque jazzy da guitarra de Guilherme Monteiro e do trompete de Paulinho Viveiro.

A densidade poética atinge altitude ainda maior no voo filosófico alçado por Gilberto Gil em Viagem passageira, balada adornada com cordas (arranjadas pelo mesmo Felipe Pacheco Ventura que orquestrou a balada de Hyldon) que se afina com outra canção de tom existencialista, Cabelos e unhas, composta por Paulinho Moska a partir de poema de Breno Góes.

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Reflexo de Gal no espelho do tempo, a viagem do álbum A pele do futuro abarca escalas norte-americanas no soul retrô à moda de Amy Winehouse (1983 – 2011) – cantora inglesa que inspirou o molde de Palavras no corpo (Silva e Omar Salomão), primeiro single do álbum, apresentado em 25 de maio – e na pegada do blues que acentua a letra de Mãe de todas as vozes (Nando Reis), ode à dona do dom do canto referencial para cantoras do Brasil pós-anos 1960.

Se Gal acalenta divas posteriores, essa interprete matricial está eternamente deitada no colo de Mariah Costa Penna (1905 – 1993), referência pessoal no canto em feitio de oração que pauta o dueto fraterno entre Gal e Maria Bethânia em Minha mãe, sublime canção composta por César Lacerda – se provando grande entre os grandes alinhados na ficha técnica de A pele do futuro – com base em poema de Jorge Mautner.

Nessa faixa capaz de converter até ateus, o acordeom de Mestrinho leva Gal para um interior já habitualmente frequentado por Bethânia, que canta em memória da mãe Claudionor Viana Teles Veloso (1907 – 2012), a Dona Canô, o que faz com que o mano Caetano Veloso também esteja indiretamente presente no disco, por mais que esteja ausente da ficha técnica de A pele do futuro.

O contraste entre os timbres antagônicos mostra que o cristal de Gal ainda reluz, mesmo que a lâmina aguda da voz da cantora já se mostre naturalmente desgastada pela ação do tempo. O que em nada diminui o valor do 40º álbum dessa singular cantora que encara o tempo de frente, aos 73 anos de vida e 54 de carreira iniciada em 1964, renovando o repertório e se revigorando nas camadas ora cintilantes ora profundas d’A pele do futuro. (Cotação: * * * * *)

Fonte: G1 Mauro Ferreira

   

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