Hyldon

As Coisas Simples da Vida

Hyldon em entrevista ao caderno Serafina da Folha de São Paulo

 

Hyldon, 62, caminha sem ser incomodado pelo Recreio dos Bandeirantes, bairro na zona oeste carioca com jeitão de cidade pequena. Ritmo lento, havaianas brancas com tiras azuis e pouca gente na rua. Nada na cena lembra o agito de alguns bairros da zona sul do Rio.

Foto de Daryan Dornelles

 

A menção ao nome do músico não costuma gerar mais do que um franzir de sobrancelhas acompanhado por um sonoro: “Hyldon quem?”.

Basta, contudo, cantar o refrão de sua música mais famosa para o cérebro do interlocutor fazer a sinapse: “Jogue suas mãos para o céu // E agradeça se acaso tiver // Alguém que você gostaria que // Estivesse sempre com você”. Sim, é dele o verso: “Na rua, na chuva, na fazenda // Ou numa casinha de sapê”.

A música foi lançada em 1973, em um compacto que incluía “Meu Patuá” no lado B. “Sempre achei que a outra iria estourar”, confessa. “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda” alcançou o primeiro lugar das paradas, enquanto “Meu Patuá” não fez muito sucesso. “Tudo isso e eu ainda não tinha nem feito fotos de divulgação.”

A relação de Hyldon com a fama (que não veio) é ambígua. O cantor tinha apenas 22 anos quando compôs e gravou seu maior hit, mas já trabalhava no meio há algum tempo, ora como músico de estúdio para nomes como a banda da jovem guarda The Fevers e Wilson Simonal, ora como produtor na PolyGram, onde foi responsável por discos de gente como Luiz Melodia e Odair José.

“Aprendi com a Jovem Guarda que não queria ser um ídolo, uma celebridade”, diz o músico. “Sempre quis ser uma pessoa normal que fazia música”. E assim foi. Ou quase. Para quem conviveu intimamente com artistas como Tim Maia, Elis Regina ou Raul Seixas, o nome de Hyldon carrega pouco peso.

“Desde cedo eu me preparei pra caramba para o sucesso como músico”, conta. “Mas nunca para enfrentar uma multinacional como eram as gravadoras.” De fato, Hyldon fazia mais brigar com as próprias do que gravar com elas.

“Eles queriam que eu gravasse ‘Angie’, um cover dos Rolling Stones”, conta. “Fiquei muito puto, eu era compositor, não intérprete.” A birra dele passava por uma desavença com o lendário executivo da PolyGram, André Midani. “Queria entrar na sala do Midani e dar um soco na mesa dele, que nem o Tim Maia”, diz o músico. “Me seguraram e eu fui para casa ouvir ‘Angie’. Lembro de pensar, ‘Porra, eu gravo muito melhor do que isso’.”

NA RUA, NOS EUA

Devido às constantes quedas de braço com a gravadora, seu disco de estreia, batizado, claro, de “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, foi lançado dois anos depois de seu primeiro compacto, em 1975. “O disco chegou a ir três vezes para a fábrica em oito meses, mas sempre voltava porque o André Midani descobria. Eu era primeiro lugar no Brasil e eles queriam me boicotar”, desconfia o músico.

Disco lançado e primeiro lugar nas paradas, o músico cansou. “Fui passar 15 dias em Nova York, acabei ficando oito meses.”

Nos EUA, dedicou-se a ouvir música, ao invés de fazê-la. Frequentou shows de ídolos como Marvin Gaye e Al Green e trouxe para o Brasil discos da banda Earth, Wind & Fire. “Fui eu quem apresentou essa banda para todo mundo aqui”, conta. “Caetano e Gil usaram muito ela como inspiração. Pena não terem me pago royalties, mas agora vou pedir para a Paula Lavigne.”

O tempo fora não acalmou seus ânimos. Na volta ao Brasil, a PolyGram pretendia utilizar o sucesso comercial do primeiro disco dele para fortalecer a sua imagem junto ao público. “Fui a uma reunião com o Roberto Menescal e o Paulo Coelho, responsável pelo marketing da gravadora”, lembra. “Eles queriam me transformar no ‘cara do tênis’. Ia ser para o calçado o que o Elton John era para os óculos lá fora.” Hyldon não gostou. “Se fosse hoje eu gostaria muito, ia ganhar um monte de tênis. Mas na época fiquei muito puto, porque ninguém falou de música.”

Foi nesse estado de espírito que o músico gravou o segundo álbum, “Deus, a Natureza e a Música”, seu trabalho mais experimental, com músicas longas e faixas inteiramente instrumentais. “Era um disco de despedida mesmo, queria ir embora da gravadora”, conta. “Não tinha nem foto minha na capa, o que era uma loucura para a época.”

O disco foi um fracasso de vendas, assim como o seu sucessor, “Nossa História de Amor”, produzido por outra gravadora, a CBS, e lançado um ano depois. Hyldon lembra que o álbum, de pegada mais romântica, até começou tocando bem. “De repente, veio um amigo meu da gravadora e me disse que o disco tinha sido proibido de tocar na rádio”, conta. “Aconteceu a mesma coisa com o Fagner naquela época.”

E explica. “Dizem que o diretor da gravadora, um cara que não gostava de música, minava todas as canções românticas que não eram do Roberto Carlos”, diz. “Não sei se é verdade.”

Nos anos 1980, o artista ainda lançou outros três álbuns, nenhum chegando nem perto de seu primeiro sucesso comercial. “Minha personalidade atrapalhou muito, faltou antes de tudo um psicólogo, depois um advogado e por fim um contador”, diz. “Eu era vizinho do Raul Seixas e amigão do Tim Maia, então meus conselhos só vinham de gente muito louca”, lembra.

Nos anos 1990, contudo, outra música dele entrou definitivamente para o imaginário popular. Com a economia e a indústria fonográfica em crise, Hyldon produziu e compôs as músicas de um disco para o personagem Seu Boneco, da “Escolinha do Professor Raimundo”.

Ê Ô Ê Ô

Vascaíno doente e titular do time de futebol amador organizado por Chico Buarque, o Politheama, o músico conta como foi o seu processo criativo. “Uma noite sonhei com a torcida do Vasco cantando ‘Ê Ô Ê Ô, o Seu Boneco é o terror!’. Acordei com aquilo na cabeça e coloquei no refrão da música.”, conta. “Algum tempo depois a torcida do Vasco cantava essa música para o Romário, achei a coisa mais legal do mundo.” De fato, não é preciso ser frequentador de estádios para saber que o grito é das poucas unanimidades existentes no mundo do futebol.

Hoje, Hyldon está prestes a lançar o seu décimo álbum, “Romances Urbanos”, com a participação de Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro e Mano Brown. “É como o Tim Maia dizia que um disco precisava ser, metade mela-cueca, metade esquenta-suvaco”, brinca. Mas quem espera alguma coisa parecida com seu primeiro sucesso vai se decepcionar. “Sempre me falaram para eu fazer uma nova ‘Na Rua, Na Chuva’, mas como? Aquela era uma história. E uma história só se repete como farsa, alguém já falou isso.”

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