Hyldon

As Coisas Simples da Vida

Os 10 melhores discos Baianos (Salvador com H)

 

 

Salvador, 02/02/2011 – Talvez não haja data tão correlacionada aos clássicos da música baiana como o 2 de fevereiro, dia no qual Salvador  debruça-se sobre o mar do bairro do Rio Vermelho para saudar Yemanjá. Explica-se. A sereia que canta no mar inspira o baiano a cantar.

E como canta o baiano… Com vários timbres e sob vários estilos, canta até falando! Com todo respeito aos outros Estados, é a Bahia quem dá as cartas na Música Popular Brasileira. E se não é o único curinga do baralho, certamente é um dos principais.

Se a Bahia é lenda, música e festa, outra coisa é certa: os discos baianos clássicos são tantos que não cabem em uma única lista de 10. A relação seguinte, portanto, está longe de esgotar o tema, e pauta-se em critérios como qualidade musical, importância histórica, quantidade de singles e vendagens.

 

Raul_Seixas_-_1973_Krig-ha_BandoloKRIG-HA, BANDOLO! – RAUL SEIXAS (Philips/Phonogram, 1973)

Quem pensa que na Bahia só se faz axé, samba e Tropicália, engana-se. Acredite: o pai do rock brasileiro era baianíssimo e se chamava Raul Seixas!

 

O “Maluco Beleza” entrou definitivamente para a galeria dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Um verdadeiro caldeirão em ebulição que conseguiu condensar, em apenas 44 anos de vida, elementos como ocultismo, alcoolismo, depressão, drogas, rock and rool e uma genialidade ímpar na arte de compor. Toda essa mistura traduziu-se em sua obra,  absolutamente despida de preconceitos: do xote/baião ao yê-yê-yê, do toque do candomblé ao brega escrachado, do romântico ao rock and rool estilo Elvis, tudo era ingrediente a ser aproveitado na panela do Raul.

Também se tornou lendária a sua suposta aversão à “turma do dengo”, como ele denominava os tropicalistas Gil, Gal, Bethânia e Caetano (vide vídeo no youtube:http://www.youtube.com/watch?v=0aAmF66yZHM). O “Rock das Aranhas”, inclusive, teria sido composto em “homenagem” a Gal e Bethânia.

Em Krig-ha, Bandolo!, Raul mistura o inimaginável: o atabaque do candomblé alia-se ao fox-trot norte-americano, por exemplo, em clássicos como “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante” (ambas autorais), “As Minas do Rei Salomão” (Raul/Paulo Coelho), “Al Capone” (Raul/Paulo Coelho) e “Ouro de Tolo” (Raul).

 

MAGIA – LUIZ CALDAS (Nova República/Polygram, 1985)LUIZ_CALDAS_-_MAGIA

Este disco não foi o primeiro da “axé music”, mas tem como grande mérito o pioneirismo na projeção nacional do gênero: foram mais de 380 mil cópias vendidas, segundo o próprio Luiz Caldas. Produto de um axé ainda cru, já traz uma relativa qualidade (para a época) em alguns arranjos e composições – ressaltando-se, no último quesito, “Tilintar”, composição do próprio Luiz.

Marcadamente autoral – em 6 das 10 faixas há o dedo do artista –, o álbum mistura estilos tradicionais (como o reggae, o pop e a salsa) com sonoridades “inominadas”, presentes nas faixas “Magia” e “Tilintar”, por exemplo. Talvez o seu grande trunfo tenha sido mesmo a coragem do arriscar no “sabe-se lá o quê”.

O carro-chefe do disco é a polêmica “Fricote” (Paulinho Camafeu/Luiz Caldas), canção com letra de duplo sentido que alavancou a axé music ao Olimpo do show business nacional: pela primeira vez, um representante do estilo figurava por semanas a fio no Cassino do Chacrinha, programa vespertino exibido aos sábados na Rede Globo. Diga-se de passagem que a explosão nacional do axé foi o grande acontecimento baiano após o estrelato da turma da Tropicália e do roqueiro Raul Seixas.

Menos pela qualidade e mais por razões históricas, “Magia” é um disco que merece reconhecimento.

 

banda_eva_ao_vivo_-_1997BANDA EVA AO VIVO – BANDA EVA (Polygram, 1997)

Eis aí um CD que quase todo mundo tem em casa. Resultado de uma “axé music” mais madura e profissionalizada, é um divisor de águas na carreira da cantora Ivete Sangalo – então vocalista da Banda Eva -, sendo considerado a “cereja no bolo” da musa: afinal, não é todo dia que um artista vende mais de 2 milhões de cópias num único disco…

Repleto de singles (como “Levada Louca”, “Vem, Meu Amor”, “Eva” e “Arerê”), o álbum foi gravado na área verde do Othon Palace Hotel de Salvador e contou com a direção artística de Max Pierre. Eletrizante e “pra cima”, tem como fio condutor a estonteante afinação de Ivete, artista cujos dotes vocais só melhoram com o tempo.

Destaques para as regravações de “Coleção” (Cassiano/Paulo Zdanowski), “Tão Seu” (Samuel Rosa/Chico Amaral), do Skank, e “Eva” (Giancarlo Bigazzi/Umberto Tozzi/versão de Marcos Ficarelli), da banda Rádio Táxi.

 

GITA – RAUL SEIXAS (Philips/Phonogram, 1974)Raul_Seixas_-_Gita

Outro clássico do Maluco Beleza, que mais uma vez se despe de idéias pré-concebidas para interpretar, num mesmo disco, um autoral bolero rasgado (“Sessão das 10”), um repente-baião (“As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”, composição dele próprio) e uma valsa (“Prelúdio”, letra e música dele).

A irreverência, marca intransponível de Raul, revela-se desnuda em “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor” (“Acredite que eu não tenho nada a ver/Com a linha evolutiva da Música Popular Brasileira/A única linha que eu conheço/É a linha de empinar uma bandeira…).

Destaques para os hits “Medo da Chuva”, “Água Viva”, “Sociedade Alternativa” (todas de Raul/Paulo Coelho), “O Trem das 7”, “S.O.S.” (ambas autorais) e  a profética “Gita” (Raul/Paulo Coelho). Não foi à toa que o disco vendeu 600 mil cópias em pleno 1974.

 

caetano_veloso_-_circuladoCIRCULADÔ – CAETANO VELOSO (Philips/Polygram, 1991)

Vinte anos se passaram desde o lançamento, mas Circuladô permanece incólume em sua adolescência pós-moderna.

Se a maior parte da discografia de Caetano é composta por clássicos, Circuladô sobressai por iniciar a última década do século XX e consolidar a pós-modernidade sonora do artista – experimentada desde “Caetano” (de 1987) e continuada em “Estrangeiro” (1989). Além de tudo, causa um impacto auditivo em faixas antológicas como as autorais “Fora da Ordem”, “Neide Candolina” e “O Cu do Mundo” (esta, com participações de Gilberto Gil e Gal Costa nos vocais).

Além de consagrar a rebeldia característica de Caetano, o álbum presta-se  a homenagens. Em “Boas Vindas”, Veloso saúda o nascimento do filho Zeca, e em “Itapuã”, exalta o famoso bairro soteropolitano dantes cantado por Vinicius de Moraes e Dorival Caymmi. Isso sem falar em “Baião da Penha” e “Santa Clara, Padroeira da Televisão”, duas canções que exaltam elementos do catolicismo, por tantas vezes criticado na obra de Caetano.

Num disco onde o erro passa longe, difícil é apontar as melhores faixas. Mas em “A Terceira Margem do Rio”, a dupla Milton Nascimento e Caetano usa e abusa da métrica e singeleza.

Esse é, enfim, Circuladô, o álbum onde Leblon, Trianon, Penha, Liberdade e Itapuã situam-se no mesmo quarteirão, e onde Caetano nada mais faz do que reafirmar a sua genialidade artística. E tome-lhe poesia e crítica social…

 

A RAÇA HUMANA – GILBERTO GIL (Wea, 1984)gilberto_gil_-_a_raca_humana

Reza a contra-lenda que “os iguais se atraem”. Pois bem. Tal e qual Caetano Veloso, Gilberto Gil é um artista de discos clássicos, como, por exemplo, “Um Banda Um”, “Parabolicamará, “Refazenda” e “Refavela”…

Por hora, ficamos com esse estupendo álbum que tem a cara dos anos 80 e que, na versão em CD, traz 4 faixas-bônus – afora as tradicionais (9) músicas que se completam: das eletrizadas “Extra II – O Rock do Segurança”, “Feliz por Um Triz” e ”Pessoa Nefasta”, perpassando pela crítica social de “A Mão da Limpeza” e “Tempo Rei”, ao reggae poético de “Vamos Fugir”, “Índigo Blue” e Raça Humana” e culminando no irresistível baião “Vem Morena”.

 

timbalada_-_mae_de_samba

 

MÃE DE SAMBA – TIMBALADA (Polygram, 1997)

O primeiro álbum homônimo da Timbalada (1993) foi, à época, indicado pela Revista Billboard como “o melhor CD produzido na América Latina”, mas, ainda assim, “Mãe de Samba” consegue ser melhor do que o primogênito. Primando pela maturidade musical e excelentes intervenções dos vocalistas Denny, Patrícia e Ninha, o disco traz 16 faixas pertinentes, com destaque para “Na Beira do Mar” (D. P/ adapt. Carlinhos Brown), ”O Erro e o Concerto” (Carlinhos Brown/Vevé Calazans, com participação marcante de Alcione), “Anágua” (Carlinhos Brown), “Me Perdoe Brasil” (Jaime Bahia/Ninha Brito/Guará/Dega), “Cordão de Bloco”(Gustavo de Dalva/Boghan Costa/Carlinhos Brown/Daniela Mercury), “Homenstruado” (Carlinhos Brown), “Suando a Camisa” (Boghan Costa/Gustavo de Dalva) e o single “A Latinha” (Carlinhos Brown/Alain Tavares).

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NA RUA, NA CHUVA, NA FAZENDA – HYLDON (Polydor, 1975)

A Bahia tem rock, samba, Tropicalismo, axé e… soul! Considerado o Rei do gênero no Brasil (ao lado de Cassiano e Tim Maia), o soteropolitano Hyldon anda sumido, mas não esquecido. Até porque música boa é atemporal…

No primeiro disco – 99% autoral – da carreira, o artista passeia pela crítica de costumes (“O seu sonho é ser artista de TV/Cuidado pra não se perder na trama/E eu sempre lembro de você/Quando escuto música americana”) sem perder a singeleza romântica, audivelmente presente em “Vamos Passear de Bicicleta?”, “Acontecimento” e “Vida Engraçada”, por exemplo.

Nem o duplo sentido foi esquecido (“Mas veja a vida como é/É engraçada como o quê/Eu fui gostar de uma mulher/Que tem gelo no lugar… do coração“). Elementos bucólicos misturam-se ao samba-soul num suingue inconfundivelmente brasileiro.

Apesar de todo o disco merecer atenta audição, os destaques vão para os hits “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, regravada e trabalhada pelo Kid Abelha em 1996 (oportunidade na qual a Kid  alcançou a marca de 500 mil discos vendidos); “Na Sombra de Uma Árvore”, “As Dores do Mundo” (regravada pelo Jota Quest em 1996, também com absoluto sucesso) e para “Quando a Noite Vem”. Ou seja: além de talentoso, Hyldon é um dos maiores pé-quentes da MPB.

 

 

DOCES_BRBAROS_AO_VIVO_-_1976DOCES BÁRBAROS AO VIVO – CAETANO VELOSO, GAL COSTA, GILBERTO GIL E MARIA BETHÂNIA (Philips, 1976) – O quarteto baiano dispensa apresentações. Se um é pouco, dois é bom e três é demais, a reunião musical dos quatro ícones do Tropicalismo é excelente! Muito embora Bethânia não seja considerada propriamente uma tropicalista, seria-lhe impossível furtar-se das influência dos dois amigos e do irmão.

Neste disco, oriundo do show homônimo e sugerido por Bethânia, os 4 ícones da MPB eternizam um encontro que nunca mais será apagado.

Destaques? Para não falar todas, ressaltamos as faixas “Os Mais Doces Bárbaros”, “Fé Cega, Faca Amolada”, “Exotérico”, “Um Índio” e “São João, ‘Xangô Menino”.

 

 

KINDALA – MARGARETH MENEZES (Polygram, 1991)margareth_menezes_-_kindala

Neste disco, a “Aretha Franklin brasileira” usa e abusa do seu talento e requinte, com a gravação de canções do mais alto gabarito, a exemplo das regravações de “Mosca na Sopa”, de Raul Seixas (com a participação de Elba Ramalho) e “Fé Cega, Faca Amolada”, um símbolo do movimento musical mineiro “Clube da Esquina” e de autoria da dupla Milton Nascimento e Ronaldo Bastos.

A fusão rítmica universalista acopla-se sincronicamente ao compromisso estético-musical, destacando-se, nesse quesito, a qualidade das composições e o engajamento sócio-ambiental. Mas é o samba-reggae a grande tônica do álbum.

Destaque para as já mencionadas regravações, além do fantástico reggae “Jet Sky”, composição autoral na qual Margareth traça um paralelo entre as ostentações do ex-Presidente da República Fernando Collor e a poluição do Rio Tietê, em São Paulo.

 

Fonte: Salvador com H

   

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