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Referência para funk carioca, movimento Black Rio se renova aos 40 anos

 

Não fosse o Black Rio não haveria o funk carioca ou hip-hop paulistano. “Foi o primeiro grande levante de uma manifestação negra oriunda das periferias brasileiras”, diz Gilberto Yoshinaga, autor da biografia “Nelson Triunfo: Do Sertão ao Hip-Hop”. Os 40 anos deste movimento cultural que teve Tim Maia, Hyldon e Sandra de Sá entre seus expoentes chegam, agora, renovados em forma de relançamentos, exposição e livro.
 
A gravadora Polysom relança em vinil alguns clássicos do movimento, como os álbuns homônimos de Tim Maia, de 1970, 1971 e 1973; “Cuban Soul: 18 Kilates”, de Cassiano; e “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, de Hyldon. Já a gravadora Discobertas coloca no mercado uma caixa com os quatro primeiros álbuns de Sandra de Sá. E o pesquisador e DJ Zé Octavio Sebadelhe, que foi curador da exposição “1976: Movimento Black Rio 40 anos”, prepara o lançamento de um livro, escrito com Felipe Gaoners Lima, para ser lançado em 6 de setembro, junto com show da Banda Black Rio, no Sesi no Centro do Rio de Janeiro.
 
black rio hyldon
 
“O movimento Black Rio foi a assimilação por parte dos jovens da periferia e das favelas, da música funk de James Brown e da cultura do black power. O mesmo aconteceu em São Paulo, Salvador e outras capitais, mas no Rio teve mais visibilidade”, avalia Silvio Essinger, autor do livro “Batidão: Uma História do Funk”. “O legado foram milhares de equipes de som e artistas como a Banda Black Rio, criada pela gravadora WEA e com seu primeiro álbum lançado em 1977, e Gerson King Combo, que deram cara brasileira ao funk”.
 
Em meados da década de 1970, o movimento já chamava a atenção como fenômeno de massa, mas o termo foi reconhecido em 1976, quando a jornalista Lena Frias escreveu uma reportagem para o “Jornal do Brasil”, intitulada “O Orgulho (Importado) de ser Negro no Brasil”. Ali, ela batizava de Black Rio o movimento que reunia milhares de jovens na periferia carioca.
 
Para Yoshinaga, o movimento foi muito importante porque conquistou espaço e respeito de forma espontânea. “Aconteceu sem pagar ‘jabá’ nem ser imposto pela grande mídia. Isso foi uma injeção de autoestima para esse público, fez os negros brasileiros perceberem o valor de sua cultura, de sua existência e de sua resistência. E também teve importância fundamental para criar os embriões da cultura hip-hop brasileira, que surgiria alguns anos mais tarde”.
 
Yoshinaga diz que bailes black similares aos iniciados nos anos 1970 existem até hoje. “Ao longo dos anos deixaram de ser novidade e perderam força, seu público se pulverizou e parte dele passou a migrar para outros nichos culturais, como o próprio hip-hop ou ao que se chama de funk na atualidade”, assegura. Ele destaca como expoentes que surgiram ao longo dos anos equipes de baile como Soul Grand Prix e Furacão 2000, no Rio de Janeiro, e Tranza Negra, Os Carlos, Zimbabwe e Black Mad, em São Paulo. “Houve manifestações semelhantes e ícones por todo o Brasil. É impossível mencionar todos por se tratar de um movimento alternativo, que fez o caminho de baixo para cima”, acrescenta.
 
 

Black is Beautiful

 
A questão racial transcendeu as fronteiras da música a tal ponto que a cantora Sandra de Sá prefere chamá-lo de Música Preta Brasileira. “Entendo que talvez Sandra de Sá tenha tido a intenção de mostrar a importância desse movimento para a cultura brasileira em geral, e não apenas restrita à cultura negra. Acho que ela quis tirar a música preta do confinamento ao gueto étnico, à condição de coadjuvante musical”, diz Yoshinaga.
 
“Convencionou-se associar o rótulo MPB a pessoas brancas tocando violão de forma comportada em um banquinho e falando sobre temas amenos, com mensagens cifradas demais, algo meio elitizado. Se o P de MPB refere-se a Popular, por que não olharmos a verdadeira expressão musical do povo?”, questiona Yoshinaga, que lembra que outros nomes associados à MPB beberam na fonte dos ritmos negros, como Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Eduardo Araújo, Elis Regina, Jorge Benjor, Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre outros.
 
Para Hyldon, a música sempre supera as desigualdades raciais. “A música transcende os preconceitos. É inegável que o negro tem o suingue, balanço, mas muito branco também tem. Detesto classificações. Música é sentimento e não tem cor. Nenhum ser humano vai conseguir alguma coisa se vitimizando com auto piedade. Existe racismo no Brasil sim, mas existe preconceito contra os brancos pobres também. A grande arma para a inclusão é a educação”.
 
 

Ícones do movimento

 
O movimento Black Rio atingiu em cheio a massa. É o que garantem os executivos João Augusto e Rafael Ramos, que estão à frente dos relançamentos em vinil, destacando o papel de Hyldon, Tim Maia e Cassiano, que levaram músicas cantadas em português para os bailes. “Eles foram cabeças de chave em um movimento que se mostrou da maior importância para um verdadeiro movimento de massa”, diz João Augusto.
 
“Estamos falando de verdadeiros clássicos da black/soul music brasileira. Mas eles ultrapassam qualquer barreira ou divisão. É música popular brasileira de mão cheia. São verdadeiras aulas de produção e interpretação. Todos esses discos relançados carregam músicas que são sucessos inquestionáveis de nossa música. São obras criativas que resistem ao tempo pela qualidade e valor eterno”, diz Rafael.
 
Não é à toa que ali estão hoje clássicos como “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda” e “As Dores do Mundo”, de Hyldon; “Coleção” e “A Lua e Eu”, de Cassiano; e “A Festa de Santo Reis”, “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)”, “Não Vou Ficar”, “Você” e “Eu Gostava Tanto de Você”, sucessos na voz de Tim Maia.
 
O produtor e pesquisador Marcelo Fróes, dono da gravadora Discobertas, incluiu Sandra de Sá nesse time. “Foi a primeira grande diva e alçada à fama nacional cantando bonito num festival de MPB na TV”, diz. Ela chamou atenção quando se classificou entre as dez finalistas a canção “Demônio Colorido” no festival MPB 80, da Rede Globo. A partir dali, emplacou sucessos como “Olhos Coloridos” e “Enredo do Meu Samba”, todos presentes no box “Sandra de Sá Anos 80″.
 
“A música que toca hoje nos bailes funk e black já e outra”, diz João Augusto. “É mais moderna, eletrônica. Mas sabemos de muitos bailes que não abandonam esse estilo, festas para as quais esses discos são pratos cheios, clubes onde existe uma programação nostálgica de música brasileira, black, soul, MPB”.

   

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