Hyldon

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Rock in Rio Lisboa: 3º dia – Revista Blitz

 

Já se vive o espírito do Euro (fação euforia) em pleno Parque da Bela Vista. “O que é nacional é bom!”, apregoam no Palco Mundo os Expensive Soul, produto nacional que, a certa altura, se fez acompanhar dos atletas olímpicos e paralímpicos portugueses. Aclamada pela multidão, a entrada dos desportistas e ainda da lenda Rosa Mota antecedeu a chegada de um dos maiores êxitos da banda de Leça, “O Amor É Mágico” (que até Roberta Medina, na banca do Turismo do Brasil, cantou com entusiasmo). Apostados, como sempre, em melodias vocais fortes e num balanço soul-funk-pop que põe aos saltos a mancha humana frente ao palco, os Expensive Soul beneficiam da boa coleção de êxitos, cujas letras o público conhece de trás para a frente, bem como de alguns truques eficazes para deixar a plateia ao rubro. O orgulho nacional (há bandeiras de Portugal em palco, nas mãos dos espectadores, e nos prédios frente ao recinto também) e o sucesso junto do público feminino (“Onde estão as 100 mil mulheres aqui dentro?”, desafiam, num cálculo ainda assim feito por alto) deixam os admiradores – entre os quais há, efetivamente, muitas senhoras e jovens raparigas – nas mãos dos portugueses. “Sabes Bem”, “Falas Disso” e “O Dia Mais Feliz” conduzem o concerto até um final triunfante, com New Max e Demo em tronco nu, celebrando aquilo a que chamaram, com justiça, “um momento de consagração”, no fosso junto dos fãs.

Apesar da multidão que aplaude efusivamente os Expensive Soul, há hoje, a olho nu, menos gente na Bela Vista do que no dia de Linkin Park e Smashing Pumpkins. A diferença percebe-se nas filas para os brindes e restauração; sinal dos tempos, a maior fila que avistámos é a que leva aos prémios chorudos prometidos pela Santa Casa.

19h50- Depois da enchente do sábado passado, o Parque da Bela Vista parece consideravelmente mais calmo quando a BLITZ chega ao local. A quantidade de público sub-17 parece-nos, no entanto, maior que nos dois dias do primeiro fim-de-semana de Rock in Rio Lisboa. Seja pelo cartaz, seja uma forma diferente de celebrar o dia da criança, a verdade é que são muitos os que se sentam nos sofás insufláveis a jogar às cartas, os que soltam gritos de medo/prazer enquanto andam de montanha russa, ou fazem o ar mais enfadado que conseguem enquanto esperam nas intermináveis filas para conseguir levar para casa um lenço, uma mochila, um sofá, o que seja.

E nestas filas encontramos bem mais gente que aquela que se concentra frente ao palco Sunset, onde os portugueses Orelha Negra se esforçam por proporcionar um bom fim de tarde ao lado dos brasileiros Kassin e Hyldon. Aproveitando este intercâmbio Portugal/Brasil da melhor maneira, os Orelha Negra vão saltitando entre a soul lenta dos temas dos brasileiros e o scratch acelerado e apurado, fazendo as delícias daqueles que concentram frente ao palco secundário da Cidade do Rock. E vão debitando, também, sample atrás de sample, dando especial ênfase, na final da atuação, a clássicos dos anos 90, como “Groove is in the Heart” dos Deee-Lite, “The Power” dos Snap! ou “U Can’t Touch This” de MC Hammer. No palco Mundo estão os Expensive Soul a puxar pelas “meninas bonitas”.

E por falar em meninas bonitas, eis uma reportagem da SIC sobre o trabalho dos fotógrafos no Rock in Rio, onde sobressai a “nossa” Rita Carmo.

21h22- A brasileira Ivete Sangalo , artista residente do Rock in Rio Lisboa desde a primeira edição, acaba de assinar um dos momentos mais imprevisíveis deste terceiro dia de festival, com uma versão, ao piano, de “Easy”, sucesso dos Commodores nos anos 70 que ganhou nova glória na voz de Mike Patton, dos Faith No More. No início da atuação de Sangalo, vimos nuvens avolumarem-se no céu, de um cinzento escuro que profetizava más notícias. Até agora, o tempo mantém-se seco, mas nunca fiando.   Até às 18h00, tinham entrado no Parque da Bela Vista 35 mil pessoas (números da organização), mas podemos apostar que a esta hora o número já aumentou substancialmente. O cenário estava bem composto frente ao palco Mundo no início do concerto de Sangalo e o público não se coibiu de saltar e dançar (muitas bandeiras brasileiras salpicam a multidão) ao som de hinos como “Sorte Grande”, para levantar poeira, “Acelera Aê”, “Arerê”, já no final da atuação, ou “Cadê Dalila”.

Vestida de branco dos pés à cabeça (no início tinha também uma cartola e uma bengala) e com ar matador, Sangalo domina a multidão e diz que se sente em casa: “Meus amores. Só quero agradecer por estar aqui com vocês outra vez e por me receberem como uma rainha. Portuguesa”, exclama às tantas, debaixo de uma chuva de aplausos e gritos (femininos, na maioria). Depois de um espetáculo sem grandes pausas para descansar, sempre em ritmo acelerado e carnavalesco, a artista abandona o palco com o bronzeado perfeito coberto de suor.

21h25- Enquanto Ivete Sangalo une, frente ao Palco Mundo, uma profusão de bandeiras portuguesas e brasileiras, no Palco Sunset Boss AC faz a sua própria “fusão”, juntando os seus músicos à banda do brasileiro Zé Ricardo e ainda ao coro gospel português Shout. “Quem é que está apaixonado?”, é um dos reptos que se fazem ouvir no Sunset, e que é prontamente respondido por casais em várias posições: refastelados nos sofás insufláveis, dançando abraçadinhos ou simplesmente aplaudindo a prestação do hip-hopper português, esta noite acompanhado por cerca de 15 pessoas em palco. A dedicatória apaixonada serviu para apresentar o êxito “Princesa”, primeiro na habitual versão baladeira, depois com sotaque sambista, cortesia da banda de Zé Ricardo, que vai promovendo com eficácia e evidente prazer uma verdadeira festa afro-latina. Salsa, samba e demais sabores apimentados foram sendo servidos a um público participativo, com a voluptuosa anfitriã Paula “Paulinha” Lima a emprestar pulmões e sensualidade ao manjar. Antes do momento mais esperado – “Sexta-feira (Emprego Bom Já)”, pois então – os Shout ainda protagonizaram um momento “a capella”, ao que tudo indica fruto de improviso e capaz de tingir a noite quente de uma placidez quase natalícia. Depois chegaria o bombom aguardado por todos (a quantidade de crianças às cavalitas dos pais diz bem da transversalidade de “Sexta-feira”) e ainda um sucesso mais antigo de Boss AC, “Baza, Baza (Hoje Não Quero Saber)”, antes de uma despedida aguerrida ao som de “Survivor”, das Destiny’s Child, servida pelas vozes quentes dos Shout.

22h00- Dizem os números da organização que 83% dos inquiridos, dentre os espetactores deste dia, têm entre 15 e 25 anos, e que 50% diz ter vindo ao Rock in Rio para ver os Maroon 5. O “estudo” não revela a percentagem de senhoras entre os admiradores da banda norte-americana mas, a julgar pelos comentários que vamos ouvindo aqui e ali (“Está demasiado vestido!”, comenta, desalentada, uma jovem, quando os ecrãs devolvem as primeiras imagens do palco), suspeitamos que boa parte das fãs de Maroon 5 sejam, também, apaixonadas de Adam Levine.

Tatuado e tonificado, de resto, o vocalista de 33 anos parece, mais do que o líder, o dono da banda. Apesar de todas as guitarradas e demais arremedos roqueiros com que os Maroon 5 vão ornamentando canções como “This Love” (o primeiro êxito do grupo, de 2005, que causou um dos maiores coros do festival até ao momento), as atenções nunca se desviam do cantor, que, a espaços, passa mesmo por artista a solo à frente de uma banda de apoio.

Se há coisa que o estrondoso sucesso do concerto dos Maroon 5 neste Rock in Rio prova é que a rádio não está morta, enquanto arma de divulgação maciça de êxitos omnipresentes. O facto de os californianos nunca terem tocado em Portugal ajuda à euforia popular, mas é a série de canções melodiosas e repetidas até à exaustão nas telefonias destas dezenas de milhares de pessoas que faz a festa. Entre o rock, o funk e o disco, os Maroon 5 têm uma ovação a cada sucesso que é reproduzido, com os tais arranjos rock que chegam a refrear os ânimos dançantes da plateia, na Bela Vista. “This Love”, “Sunday Morning” e as românticas “If I Never See Your Face Again” e “Won’t Go Home Without You” deixam as fãs com o coração na mão e uma ovação na ponta de cada falsete de Adam Levine. Claramente inspirado no aparelho vocal de Michael Jackson, Stevie Wonder ou Sting (nem uma menção a “Roxanne” faltou), Adam Levine vai percorrendo o palco com destreza (ainda assim, longe dos “moves” felinos de Jagger) e instala, na Bela Vista, uma verdadeira febre de sexta à noite, que Lenny Kravitz vai ter de transpira para suar.

Curiosamente, a cada música que passa, revela-se mais acertada a junção de Maroon 5 e Expensive Soul no mesmo dia de festival; os americanos estão mais perto da disco e os portugueses de algum hip-hop, mas convergem em muitos outros pontos, como os flirts ligeiros com o reggae e o sucesso dançante de vários dos seus temas. Junto de nós, uma fã ensaia uma lapdance frente a uma amiga – divertidas, as demais filmam. Passados segundos, uma delas, munida de apito à árbitro, lidera uma comissão de incentivo para que uma “vizinha” se levante do chão, onde assistiu a todo o concerto (“Levanta! Levanta! Levanta!”, gritam, à ordem do apito). No fim, é já um rapaz que tenta a sua sorte nas artes da lapdance, para menina ver. E estamos perdidos neste espetáculo dentro do espetáculo quando chega “Moves Like Jagger”, o gigantesco sucesso que transforma, de vez, a Bela Vista numa pista de dança. O fim fez-se ao som de uma versão semi-acústica, e prolongada consecutivamente, ao gosto do freguês, de outro êxito, este mais antigo e também capaz de pôr muitas fãs a exclamar: “Esta música é linda!”. Falamos de “She Will Be Loved”, a canção que os tais 50% de espectadores irão para casa a trautear. “What a blast!”, resumiu Adam Levine. E quem viu o delírio puro desencadeado por este concerto, saberá que “blast” é dizer pouco.

01h20- Lenny Kravitz está neste momento a despedir-se do público português com “Let Love Rule”, aquela que deverá ser a única canção do encore. Ao longo de hora e meia de concerto, o músico norte-americano tocou em muitos dos pontos fortes de uma carreira com mais de 20 anos. Algumas divagações, no entanto, fizeram com que o público fosse, a pouco e pouco, esmorecendo e abandonando a frente do Palco Mundo.   Estiloso como sempre – ganga, casaco, óculos de sol -, jogando charme para cima dos fãs, Kravitz era o grande protagonista da noite e cumpriu o dever: começou em toada mais rockeira, com “Come On Get It”, do mais recente Black and White America, e depois, já munido da guitarra, seguiu caminho por “Always on the Run” e o êxito “American Woman”, que levou à primeira reação entusiasta do público.

“É um prazer estar aqui novamente. Obrigado por nos receberem e nos darem a oportunidade de ver o vosso lindo país de novo”, exclamou o músico antes de se atirar ao primeiro clássico da noite, “It Ain’t Over Till It’s Over”, com a plateia a cantar em coro. O velhinho “Mr. Cab Driver” teve direito a solo de trompete e uma jam levou-o até um “Black and White America” já servido sem casaco, exibindo as tatuagens.

A debandada começou com a sequência mais calma que se seguiu: “Fields of Joy” deu início a uma sequência que passaria ainda pela balada “Stand By My Woman” e por “Believe”, que fez renascer algum entusiasmo, novamente esmorecido com o acústico “Stand”. “Agradeço em nome de todos os músicos que estiveram neste palco hoje”, diria Kravitz antes de trazer o rock de volta ao Parque com “Rock Star City Life”.

Caminhando a passos largos para o final do concerto, o músico reconquistou a atenção do público com o acelerado “Where Are We Runnin'” e o mega-suceso “Fly Away”, que diríamos, a avaliar pela reação geral, era o tema mais aguardado da noite. Os últimos cartuchos foram gastos, antes do encore, ao som da guitarra endiabrada de “Are You Gonna Go My Way”. Já sem óculos de sol, Kravitz voltava depois então para um alongado encore ao som de “Let Love Rule”. E terminou assim, com fogo-de-artifício mais um dia de Rock in Rio, que contou, segundo a organização, com a presença de 74 mil pessoas.

   

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