Hyldon

As Coisas Simples da Vida

Vale Tudo (Jornal Bleh)

 

 

Convidamos o soulman Hyldon, amigo de Tim Maia, para comentar o pacotão de 15 álbuns da melhor fase do síndico — entre eles o inédito Racional 3, que finalmente vai ser lançado em CD.

Uma das novelas mais aguardadas da música brasileira terminou. Carmelo Maia, herdeiro de Tim Maia, pôs fim aos impasses judiciais que emperravam o relançamento da obra do síndico. Assim, a Abril Coleções põe nas bancas 15 álbuns do artista em CD — entre eles os álbuns da fase Racional, há décadas vendidos a peso de ouro nos sebos de vinil. Racional 1 foram gravados de 1975 a 1976, quando Tim se converteu à seita Universo em Desencanto. As letras das canções propagandeiam a doutrina, que mistura ufologia a espiritismo, e fizeram com que Tim largasse a vida desregrada — e chegasse até a vender ovos num semáforo para ajudar a seita de Manoel Jacintho Coelho. Desiludido com a religião após flagrar o guru usando drogas e fazendo sexo com uma fiel, o compositor abandonou o Universo em Desencanto e nunca mais tocou as canções — clássicos como Imunização Racional (Que Beleza) —, e as renegou até sua morte, em 1998. É a primeira vez que Racional 2 sai em CD. A seleção traz um volume inédito, com sobras dessas gravações, o Racional 3. Outro destaque são os álbuns do começo dos anos 70, que reúnem Primavera,Gostava Tanto de Você Não Quero Dinheiro. O compositor Hyldon, um dos melhores amigos de Tim Maia, com quem tocou até os anos 80, falou a ALFA sobre os bastidores da gravação dos melhores álbuns do síndico.

TIM MAIA 1970 “A voz do Tim brilha como nunca. Pura emoção. Tudo o que passou antes de gravar está aí: a ralação até assinar com a gravadora, o complexo de inferioridade, a prisão e a extradição dos Estados Unidos (por porte de drogas, em 1964), a rixa com a jovem guarda. Guardou tudo dentro dele e liberou nesse disco. É uma catarse.”

TIM MAIA 1971 “Ele estava apaixonado pela Janete, mas infeliz. Uma noite, apareceu com um uísque no apartamento que eu alugava com uns amigos. Começamos a fazer um som e fomos noite adentro. Lembro do Tim chorando, bêbado, cantando em inglês em tom de lamento — assim nasceu I Don’t KnowWhat to Do with Myself, desse disco. Às 6 da manhã, tocaram a campainha: era a polícia. Fomos despejados…”

TIM MAIA 1973 “Nesse ele criou o samba com sotaque soul. Isso aparece emGostava Tanto de Você, minha preferida. Influenciou toda a galera jovem que fazia samba-rock nos bailes da periferia.”

RACIONAL 1, 2 e 3 “Um dia, o Tim avistou da janela do meu apartamento em São Conrado umas luzes brancas no horizonte e achou que eram discos voadores. Eu disse que não via a tal da luz e ele falou: ‘Tu não quer é enxergar a verdade’. Ficou irritado e contou essa história a uma amiga nossa, a Marlene Morbeck, ex-chacrete. Ela não acreditou: ‘Você está vendo luz branca, Tim Maia? Isso é fígado. Tu tá comendo muito quindim!’ Sem brincadeira, ele comia uns 30 quindins por dia. Nessa época, todo o pessoal da banda teve de se converter ao Universo em Desencanto. Eu era muito aceito pelos músicos e era o único que podia entrar lá e tocar com qualquer cor de roupa. O resto só podia usar branco. Foi por causa disso que o Tim brigou com a Globo: eles convidaram o Tim para tocar Que Beleza em um programa, ele chegou com a banda toda de branco, e o diretor Arnaldo Artilheiro disse que não dava, porque borrava a imagem, e pediu pro pessoal trocar de roupa. Quase saiu porrada, porque o Tim não aceitou e foi embora. Esse Arnaldo Artilheiro era enorme, queria matar o gordo. O Tim ficou revoltado e comprou um gavião para treinar e pegar o Artilheiro. Deixava o gavião em um quartinho que tinha lá na casa dele, mas tinha medo de ser atacado pelo bicho. Ninguém tinha coragem de dar comida ou água ao gavião. Depois de uma semana, o bicho morreu…

Com o dinheiro da Philips, ele comprou um terreno na Lagoa para construir um estúdio. Colocou um canil atrás: vários pastores, e depois veio um fila, o Duque. Esse cachorro tinha um cabeção, dava aquelas lambidas que babam a cara da gente toda. Ele vivia soltando pum e o cheiro ruim não passava, durava meia hora. E o Tim achava tudo aquilo normal, porque o cachorro era dele. Então, tinha de ensaiar e aturar os bichos (risos).”

TIM MAIA 1978 “O Tim sonhava em gravar em inglês e fazer sucesso nos Estados Unidos. Natural: é a terra da soul music, ele morou lá e sabia a língua, queria novas plateias. Não rolou: o Tim não conseguiu visto para entrar (por tersido preso). Não fosse isso, a coisa poderia ter dado certo.”

TIM MAIA DISCO CLUB 1978 “Eu tinha voltado de viagemdos Estados Unidos, e láa discoteca estava no auge. Mostrei Gloria Gaynor e Barry White ao Tim e ele gostou. Mas não dá para dizer que fizemos música disco. A Fim de Voltar tem algo do gênero,mas Sossego Acenda o Farol são outra praia. Nunca entendia letra dessa última: ‘Pneufurou, acenda o farol’. O Timera barbeiro pra caramba.Você acende o alerta quandoo pneu fura, não o farol! Masele dava mais importância àmúsica que à letra. Dizia queminhas letras eram complexas: pegavano meu pé por causa de Táxi para Bahia: ‘Quem viaja de táxi? Só se foro Cassiano, que não dirige’.”

IMPÉRIO MAIA
A Abril Coleções lança os volumes toda semana, todos com livreto de capa dura. Tim Maia 1970 sai R$ 7,90; os seguintes custarão R$ 14,90. Em box, a coleção será vendida via www.colecaotim.com.br, por R$ 216,50. Também fazem parte da seleção Nuvens (1982), Dance Bem (1990) e Tim Maia Interpreta Clássicos da Bossa Nova (1990), entre outros álbuns indispensáveis

 

Fonte: Jornal Bleah

   

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